Nuno Teotónio Pereira, para sempre.
21-01-2016

Há dias que não deviam existir. Como aqueles que roubam os amigos para sempre, sem mais. E há horas em que as palavras falham. Porque nunca são as mais certas, porque escondem a emoção e as lágrimas, porque faltam diante da perda terrível. É assim com Nuno Teotónio Pereira.

Não quero repetir-me ao dizê-lo um dos mais importantes arquitetos portugueses dos últimos 50 e mais anos, sabendo-o indissociável da própria história da nossa arquitetura, entre tantas obras que iluminam o nosso fazer.
Nem como uma das mais destacadas personalidades da arquitectura portuguesa, desde o tempo em que, ainda estudante, insurgia-se contra a falta de autenticidade na criação arquitetónica ou quando aventurava publicar, logo em 1944, a primeira tradução da famosa Carta de Atenas. Ou ainda, quando, no mítico Congresso Nacional de Arquitectura de 1948, fazia uma comunicação sobre a Habitação Económica e Reajustamento Social, protagonizando o urgente compromisso da arquitectura e dos arquitetos com os seus concidadãos.
Não quero falar sequer do importantíssimo papel que desempenhou nas sucessivas associações profissionais de arquitetos, pugnando por melhores condições para a profissão em Portugal, sempre, sempre presente em todos os momentos cruciais da vida associativa e coletiva.

Quero, isso sim, falar da pessoa. Do homem grande que soube Ser Humano. Daquele que abdicou do Eu no Nós, tantas vezes tão inconformado quanto generoso em constantes exemplos cívicos e de cidadania, sempre na primeira linha do combate.
Quero dar testemunho desta sua postura permanente e exemplar de querer servir e de querer fazer melhor. Na incansável procura por uma sociedade mais justa, mais digna e mais fraterna, em que todos nascem livres e iguais. Discernindo combates e compromissos. Assumindo todos os riscos, todos os erros, todas as virtudes. Entregando-se às causas públicas sem nada esperar em troca. E estendendo a mão, nos piores e melhores momentos, a amigos e adversários.

Recordo Sophia. Nuno Teotónio Pereira ajudou-nos a procurar reconstruir o mundo, saciando a nossa fome do terrestre, e tentando a forma justa de uma cidade humana que fosse fiel à perfeição do universo.
Não, não quero prestar-lhe homenagem por ter partido, mas por ter vivido entre nós. Por continuar vivo connosco. Para Sempre.

João Belo Rodeia
20 Janeiro 2016

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